Charles Robert Darwin nasceu há duzentos anos. Você pode acompanhar as comemorações no site Darwin200, refazer online a jornada do Beagle em http://www.nhm.ac.uk/nature-online/science-of-natural-history/expeditions-collecting/beagle-voyage/index.html, verificar todos os seus trabalhos e cartas (inclusive os originais) em http://www.darwin-online.org.uk/, ver um slideshow da maior exposição de Darwin já montada em http://www.nhm.ac.uk/visit-us/whats-on/darwin/slideshow.html, do Museu de História Natural de Londres, ou simplesmente celebrar a data tomando umas cervejas India Pale Ale (próximo post).
Um notícia correlata: o Vaticano parece aceitar a Teoria da Evolução, veja em http://www.telegraph.co.uk/news/newstopics/religion/4588289/The-Vatican-claims-Darwins-theory-of-evolution-is-compatible-with-Christianity.html. Levou menos tempo que a aceitação de Galileu e Copernico, portanto é um avanço. Alguns pontos interessantes na notícia (para quem não tiver saco de ler): o padre Giuseppe Tanzella-Nitti, professor de teologia da PUC de Roma, sugere que Agostinho, no século IV, já teria sugerido a evolução pois escreveu que “peixes grandes comem peixes pequenos” (dã!
) e que as espécies se transformavam lentamente com o tempo (duvido que o lentamente seja maior que o intervalo de tempo de uma vida). Tomás de Aquino, segundo o padre, teria feito considerações semelhantes. O jornal Daily Telegraph noticia ainda que recebeu uma carta de cientistas e líderes religiosos, em que pedem que criacionistas se rendam às provas da evolução. Curiosamente, a carta pede aos ateus que deixem de usar a mesma teoria para promover o ateísmo, pois isto afasta os criacionistas da ciência. Opinião sobre a última frase: ridículo! A ciência é não é questão de fé: uma pedra solta não cai porque eu acredito que ela vai cair, mas cai pela gravidade. Se eu crer que ela não vai cair, ela cai mesmo assim.
Numa pesquisa na Inglaterra, metade dos entrevistados disseram não acreditar que a evolução forneça respostas para a complexidade do mundo atual. Um terço acredita que o homem foi criado há menos de 6 mil anos. Nos Estados Unidos, a situação é bem pior.
Finalmente: parabéns, Charles e muito obrigado.
Discussão
Olá Thadeu,
Em primeiro lugar, obrigado pelos links. São um apanhado bem legal do que está rolando sobre os 200 anos do grande Darwin.
Em segundo lugar, discordo um pouco da sua posição em relação à frase que pede aos ateus para pararem de usar a teoria para promover o ateísmo. Fé (ou ausência dela) é algo pessoal. Não tem como PROVAR a fé. É uma crença. Não acredito que fé e ciência sejam incompatíveis, até mesmo por causa disso. Claro que uma pessoa que acredita que Deus fez o mundo (no sentido literal da palavra), com tudo o que tem aqui, em seis dias não vai poder acreditar na teoria da evolução. Mas acreditar na teoria da evolução não necessariamente exclui a ideia da existência de um ser que está além da nossa compreensão.
Portanto, ser um cientista não o torna automaticamente um ateu. E querer justificar o ateísmo baseado na ciência é tão ruim quanto querer justificar a existência de Deus baseado na bíblia.
Um abraço e até mais.
Frederico
Olá Fred,
entendo o que você coloca, apesar de não acreditar na compatibilidade de fé e ciência. O que eu critiquei é que, pelo documento, parece que a credibilidade da teoria depende de quem apresenta. Tentando esclarecer: a teoria da evolução não precisa da hipótese de algo sobrenatural para o aparecimento da vida na Terra. Um crente pode concordar com a teoria da evolução e alegar que isto não derruba a teoria da existência deste ser sobrenatural, e ele tem razão. O ateu diria que isto confirma a teoria da não existência de um ser sobrenatural, e ele tem razão. Portanto a fé (ou falta dela) não pode interferir na interpretação e principalmente na aquisição do conhecimento científico.
[]s
Ciência é, sim, questão de fé – mas não de fé religiosa. O que vejo, sendo cientista e criacionista, é que somos vituperados por crermos na existência de algo acima de nós, seja lá o nome que se queira dar a esse algo, como se isso fosse limitante de nossa capacidade racional.
Infelizmente, no Ocidente, Deus costuma ser associado a tudo de ruim que a Humanidade já fez e faz contra si mesma em seu nome – mas os evolucionistas, os céticos, os ateus fazem vista grossa às atrocidades cometidas pela ciência quando cometidas pela ciência. Preferem dizer que a culpa foi de Cicrano, foi de Beltrano, mas não da ciência em si, como se ela fosse totalmente independente de quem a pratica, como se existisse numa realidade de completa infabilidade, centro desse universo ideal.
Só para constar, nos EUA, maior produtor de conhecimento científico, metade da população crê em Deus. Se a fé, se a religião realmente tolhem o progresso científico, e diretamente a riqueza de uma população, como explicar o paradoxo?
Olá João Santana
É comum acharmos que homens de ciência pareçam ter comportamento parecido com aqueles de fé. A questão é que não existe (a grosso modo) em ciência, a verdade absoluta. A Ciência pode ser testada por experimentos e observações. Basta um fóssil fora de época para acabar com a Teoria da Evolução. Ela está sujeita a testes, o problema é que não foi encontrada a falha. Isto não quer dizer que seja a verdade absoluta, mas é o mais próximo de verdade que chegamos. Esta aparente pequena diferença distingue sobremaneira o comportamento de um cientista, de uma pessoa de fé.
Não há paradoxo. Apenas 40% da população americana acredita na evolução (veja http://forum.if.uff.br/viewtopic.php?t=257). De 5% a 7% declaram não acreditar em algum deus. Porém de 85% a 93% dos cientistas da National Academy of Sciences não acreditam na idéia de um deus. Estes produzem cerca de 99% da ciência nos Estados Unidos, pelo menos a de qualidade.
Como pode-se notar, a fração que produz conhecimento é, infelizmente, muito pequena.
[]s
Olá Thadeu! Gostaria de fazer um comentário sobre a diferença nas porcentagens dos que acreditam em Deus, comparando-se a população comum com os cientistas da National Academy. Os cientistas só fazem ciência porque intimamente ACREDITAM em alguma coisa. A fé é requisito “a priori” até para nos levantarmos da cama pela manhâ. Cientistas, mais do que as pessoas comuns, têm em geral muita fé na ciência.Por isso eles a produzem (e por outros estímulos também, como dinheiro,status, por exemplo).Dê uma lida nos textos de ciência de um século atrás. Percebe-se claramente um sistema “religioso”, uma espécie de crença, que hoje nos parece ridícula. Alguns cientistas são mesmo fundamentalistas, deixando de lado inclusive os critérios científicos básicos para justificar seus conceitos e crenças.